terça-feira, 10 de novembro de 2009

Você é ou está professor? - Parte 1

Hoje comecei o dia tão bem... Recebi dois e-mails que provam que eu não estou sozinha em busca de melhores professores, mais conscientes de suas responsabilidades e direitos. Segue um texto publicado na revista Profissão Mestre de Maio de 2007, por Brisa Teixeira. Vou dividí-lo em 3 partes para não ficar muito grande ok?

A paixão, a necessidade, o status, o comodismo, a vocação. Inúmeras razões levam uma pessoa a seguir a carreira de professor. Às vezes procuram por status e acabam se descobrindo apaixonados; outras vezes procuram pela paixão e com o tempo ficam acomodados. Os motivos que levam uma pessoa a ser ou estar professor são inúmeros e as vantagens e desvantagens não param na insatisfação ou realização pessoal de cada um; é o aluno quem vai se beneficiar ou não dessa escolha.

Temos o caso de Heloísa Helena e Geraldo Alckmin, dois políticos candidatos à presidência, que voltaram a lecionar. Como se sabe, eles não alcançaram os seus ambiciosos objetivos, mas estão tranqüilos na nova fase em que se encontram. Agora, se eles são os estão professores, aí só assistindo algumas aulas para saber.

Muitos estão fazendo curso de formação de professores depois de adulto por acharem que nessa área não falta emprego. Há gente séria que tentou antes outras formas de contribuir com a reconstrução de um mundo mais justo e permaneceu pouco no emprego. Você deve, também, conhecer alguém que procurou a profissão porque trabalha menos e ganha-se proporcionalmente mais ou que estudou para fazer concurso para garantir uma estabilidade para o resto da vida.

A diretora educacional da Província Marista do Brasil Centro-Sul – que congrega 16 colégios de várias regiões do Brasil – Ana Tereza Spolini, avalia todos esses tipos de professores espalhados no mercado, mas prefere não generalizar pensando que todos esses são simplesmente aproveitadores dos benefícios de uma profissão. “Já vi profissionais da educação que iniciaram sua vida com base nessas motivações e que se tornaram ‘professores vocacionados’. Com brilho no olho e tudo”, destacou.

Segundo ela, em todos os ramos do trabalho há os que estão nele por conveniência ou por circunstâncias e há os que estão por opção. “Para ensinar crianças e adolescentes, professores são necessários. Professores que são, não professores que estão.”

A diferença a partir da Filosofia
A Filosofia ajuda a entender a questão. Para o filósofo José Roberto Neves D'Amico aquele que "é professor" foi escolhido pela profissão e o que "está professor" a escolheu, talvez pelo "status", pela fantasia do poder que a profissão sugere, ou pela possibilidade de ser uma mera complementação de renda. Ou seja, conclui D’Amico, o "ser professor" é aquele que cativa naturalmente, que se empolga espontaneamente com a possibilidade de proporcionar aos alunos conteúdos que sejam apropriados às suas visualizações. “O aluno deve sair da sala de aula ou dos encontros com os professores, satisfeito com os conteúdos debatidos. Não estamos mais no tempo em que o aluno nada tem de importante a contribuir”, avalia o filósofo.

Na prática, D’Amico acredita que exercer o “ser” professor é extremamente gratificante quando este contribuiu na formação pessoal e, por conseqüência, na formação de outros. Por exemplo, explica ele, o “ser professor” não deve tratar as várias turmas da mesma maneira, mesmo que a disciplina seja a mesma. As turmas são formadas por diferentes alunos e têm interesses e características diferentes. “O ‘ser professor’ deve ter sensibilidade para percebê-las e deve adaptar a disciplina às necessidades e perfil de cada turma, caso contrário, o professor não terá o respeito, a credibilidade e a simpatia devidos perante a turma. Se não o fizer, estará agindo de maneira homogênea, que é o status que o ‘estar professor’ dá às disciplinas que ministra”, diz.

Investigação filosófica
Para a coordenadora do Centro Brasileiro de Filosofia para Crianças e professora universitária e de ensino médio do Estado, Dalva Garcia, esta suposta classificação entre ser e estar não é tão simples quando entra-se no terreno fértil, porém perigoso da investigação filosófica.
“Se tomarmos como referência a filosofia aristotélica, o que chamamos de estado estaria na categoria do acidental e, portanto, distante das afirmações sobre a natureza ou essência das coisas que nos permitiria chegar aos conceitos relevantes ao nosso processo de conhecimento verdadeiro”, diz.

Para ela, se abordar com rigor ou profundidade os fundamentos da filosofia aristotélica fica clara a pretensão filosófica de diferenciar a essência da aparência. “O fato é que esta distinção entre essência e aparência, entre natureza e estado é questionada na filosofia contemporânea”, articula.
O exemplo mais contundente é o de Sartre, segundo ela. Para o filósofo francês, não poderíamos atribuir ao humano uma essência porque "a existência precede a essência". “Na existência, no nosso fazer, nos tornamos o que somos.”

Dalva revela que a solução não seria se lamentar dos acidentes que o "jogaram" na sala de aula, mas pensar com seriedade sobre o que é possível fazer consigo e com os outros diante desse estado de coisas em que se envolveu, também, por escolha. “O cerne desse problema não seria o do ser ou do estar, mas, sim, perguntar com honestidade sobre o que nós estamos fazendo e por que fazemos da forma que estamos fazendo”, afirma.

Para ela, não se trata de classificar quem é professor e afastar da ação educacional quem, por acidente, está professor, mas de refletir, com freqüência, se estando ainda quero ser. “Dessa forma, posso responder que não apenas já estive nas duas situações. Mesmo porque isso é fundamental para repensarmos nossa ação educacional e nossos anseios e perspectivas pessoais e profissionais.”

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