quinta-feira, 12 de novembro de 2009

Você é ou está professor? - Final

A percepção de quem faz o recrutamento
A diretora educacional do setor de educação da Província Marista do Brasil Centro-Sul, Ana Tereza Spolini, no dia-a-dia do seu trabalho tem a função de orientar pedagogicamente a educação básica e escolher professores capacitados para atuarem nas instituições que congregam a Província. No momento da contratação de um professor, ela conta que procura o brilho no olhar, a emoção na voz e o discurso empolgante. “Se há uma certa inquietude corporal, se a referência aos alunos e a seus familiares é feita com cuidado e respeito, então, as chances de esse profissional ser e não estar professor são muito grandes. Acompanhe entrevista:

Como detectar numa entrevista de trabalho se o profissional “é” ou “está” professor?
É comum se observar distâncias entre o que alguém fala e o que ele é. Geralmente, o que se é como professor e o saber pedagógico que se tem manifesta-se pelas ações. Nesse sentido, é preciso prestar muita atenção a indicadores, que não necessariamente estão explicitados no discurso. Com a fala acompanham vários sinais não-verbais. Então, é preciso saber ler esses sinais, essa outra forma de expressão. É preciso saber ouvir o não dito, o inaudível, o invisível. Na minha experiência, procuro “ouvir” a paixão pela profissão, pelos alunos, pelo saber. “Ler” outras linguagens. O nosso corpo manifesta o que sentimos. O olhar, o tom da voz, o peso nas palavras, os gestos, os silêncios são focos de minha atenção. Assim, se o “olho brilha”, se a fala fica mais empolgante em algum momento e se há emoção na voz, então as chances de esse profissional ser e não estar professor são muito grandes.

E no dia-a-dia em sala de aula?
No dia-a-dia, a melhor forma, ao meu entender, é a de acompanhar a relação do profissional com os alunos e com o saber, a gestão da aula. O planejamento das atividades, o não se contentar apenas em verificar o que vai “dar” no dia, mas se preocupar bem mais com o sujeito que vai aprender a “matéria”, conhecer bem as crianças ou os adolescentes, seus momentos psicológicos, seus interesses, suas dificuldades são bons indicadores. O “ser” professor também pode ser notado no processo de aprendizagem. Se houver vínculo, se houver compromisso entre professor e aluno e seus familiares, provavelmente a aprendizagem se dará de forma mais natural. Enfim, afirmar se alguém “é” ou “está” professor requer convivência, partilha, observação.

Quais características são avaliadas no processo de seleção?
Há de se verificar competências relacionadas à leitura, à escrita, à comunicação oral. Os motivos pelos quais alguém quer trabalhar nessa área devem ir além “do gostar de crianças ou de adolescentes”. É fundamental saber, ainda, como a pessoa poderia ser um profissional “diferente”, com que modelos gostaria de romper, qual sua preocupação com as problemáticas atuais da humanidade. Costumo pedir relatos de experiências que deram certo e que não deram certo. Percorrendo os argumentos é possível analisar como o candidato lida com problemas, suas iniciativas, seus modelos de relacionamentos.

Qual a sua definição para aquele que “é professor”?
É o profissional que faz da docência sua opção primeira, a escolha com predileção e convicção, vocação, “dar certo”, acreditar na educação. Realiza satisfatoriamente a dimensão menos interessante da profissão (burocracias, por exemplo) com responsabilidade e autonomia por acreditar fazer parte integrante dos processos pedagógicos. Para esse professor, a aula é desejada, cada turma é desejada por ser única, o saber é desejado por ser intrigante, os pais são desejados e entendidos como parceiros. A reflexão com seus pares, o estudo, a investigação são desejados. Há uma força energética que mantém o entusiasmado acima do cansaço, a esperança acima das dificuldades, a procura acima de todas as respostas.

E “estar” professor?
Em geral, esse profissional apresenta dificuldades para cumprir as desdobras da profissão. Tolera a sala de aula, a aula que precisa dar. Esse sentimento de tolerância ocupa o espaço da esperança. Está sempre ligado em outras possibilidades profissionais, por isso, não se entrega totalmente ao seu ofício de mestre. Não constrói vínculos. Não tem disposição para melhorar a profissão, faz o mínimo, não é generoso. Formam esse grupo dois tipos de profissionais: os que sabem estar aí por conveniência e os que acreditam ter a vocação. Nesse segundo caso, o gestor precisa ajudá-lo a perceber-se como alguém que deve partir para novas buscas profissionais. Ajudar a “auto-avaliar-se”.

Como o aluno se beneficia com aquele que "é” professor?
A probabilidade de estabelecer vínculos afetivos é maior. O aluno tem no professor um guia, um orientador. Acredita nele. Sente no professor a paixão de ensinar e a paixão pelo saber e se deixa contagiar. Motiva-se, interessa-se pela sua disciplina, pela função que a escola representa para ele. Aprende mais e se modifica. Procura-o nas horas incertas. Confia nele. Admira-o. Sente-se acolhido. Aceita suas exigências porque não há dúvidas quanto às intenções. Muitos alunos dizem: quero ser igual a ele.

Dica de Leitura - Pedagogia da autonomia
O educador e pensador Paulo Freire, na sua última obra em vida “Pedagogia da Autonomia: saberes necessários à prática educativa” e que agora será relançada em memória aos dez anos de morte do educador, discute e dialoga com os professores e traz uma contribuição passada com muita sensibilidade e paixão em relação ao compromisso como educador. Paulo Freire enfatiza a necessidade de uma reflexão crítica sobre a prática educativa. Ele ressalta o quanto um determinado gesto do educador pode repercutir na vida de um aluno e da necessidade de reflexão sobre o assunto, pois segundo ele ensinar exige respeito aos saberes do educando.

*Os créditos do texto estão no post parte 1.

Nenhum comentário:

Postar um comentário