terça-feira, 24 de novembro de 2009

Gestor de gestores

Este texto foi publicado no livro Educação 2009 (e aqui está relacionado meu sumiço esta semana: a finalização do livro Educação 2010 - edição especial). É também uma forma de agradecer meus leitores aqui do blog e do JV que são de Portugal. Obrigada pessoal!

"Reflexões em torno das implicações do novo sistema de gestão escolar português nas competências dos gestores escolares: treinar para gerir.

Quando um aluno se inscreve numa escola do ensino secundário , fá-lo na certeza de que frequentará um curso que sirva a sua felicidade, fá-lo incentivado pelos seus encarregados de educação, tantas vezes possuidores de pouca instrução, esperançados de que a educação seja uma garantia de um futuro próspero. Uma vez no curso, integra uma turma. O currículo que frequenta não é exactamente igual ao dos restantes alunos, pois os professores podem adaptá-lo às características das turmas. Esta gestão curricular é alicerçada em princípios definidos pela escola e pelo Estado, orientações que pretendem aproveitar as mais-valias locais em favor da qualidade de ensino. Assim, os professores são os primeiros gestores que os alunos conhecem, pessoas que os devem inspirar e treinar sobre os objectivos da escola, reconstruindo-os com eles. Por isso, os professores e os alunos devem ser inspirados e treinados.

A operacionalização dos grandes princípios da escola ocorre no seio do Conselho de Turma, órgão em que se reúnem os docentes que leccionam a mesma turma e que é coordenado pelo Director de Turma, elemento fundamental na ligação entre a escola, professores, alunos e pais, responsável de gestão intermédia, gestor da imagem da escola, de expectativas, de professores e de conflitos. Deve inspirar para a visão curricular da escola. Por isso, deve estar inspirado e treinado.

No novo modelo de gestão escolar, as grandes decisões pedagógicas são tomadas por agrupamentos de professores de áreas científico-pedagógicas semelhantes, os departamentos curriculares, coordenados por um docente com assento no órgão pedagógico de excelência da escola, o Conselho Pedagógico (que é presidido pelo director da escola). É neste órgão, com a contribuição de todos os outros, que deve nascer a visão estratégica da escola, aquela que retrata os caminhos consensuais a tomar, que traduz o que se pretende para o futuro da organização e para cada um dos alunos. É também o órgão que delibera sobre os cursos a oferecer.

O Conselho Pedagógico é constituído por professores titulares , escolhidos pelo director da escola. São, portanto, portadores da sua confiança, supostamente receptivos a inspiração e a treino.

Quanto ao corpo docente, é de salientar que os professores são colocados nas escolas através de concurso público, onde imperam dois factores: a classificação do candidato no curso que o habilita para a docência e o tempo de serviço. O gestor/director nunca sabe se o docente que recebe na escola tem, por exemplo, 10 anos de experiência ou uma experiência repetida 10 anos . A gestão de recursos humanos inicia-se apenas após a colocação dos docentes. O gestor não pode contratar os docentes com um determinado perfil, mas pode afectar os professores a um serviço, segundo o seu perfil de competências. É de salientar que, em Portugal, o corpo docente é estável: em regra, os docentes permanecem pelo menos 3 anos na mesma escola.

O contexto é então o seguinte: o gestor escolar recebe professores/gestores com os quais é necessário construir, técnicos empenhados e interessados, mas que enfrentam dificuldades. O grande número de alunos por turma, o distanciamento dos pais relativamente à educação dos filhos, a imagem social negativa da profissão, a indisciplina, as excessivas tarefas administrativas e a realização de tarefas que exigem competências para lá das de ensino (como a coordenação de grupos) são alguns dos factores geradores de stress docente . É com esses docentes/gestores que o director/gestor escolar estrutura, por confiança, o funcionamento da organização.

Pessoalmente, sei que muitos professores julgam que há reuniões em excesso, encontros dos quais não se tira proveito. Eu vejo potencialidades: vários espaços de construção nos quais podemos ser mais eficazes. Por vezes, é difícil discutir a escola com os colegas professores. Note-se bem: todas as acções dos docentes são regidas pelas suas crenças, pelas suas ideias, pelos modelos que adoptaram. Alguns gestores podem achar que não há tempo para construir visões ou ideias, para debater a escola que há-de vir. Nada mais errado. As ideias gerem a escola: as ideias dos professores, que são gestores do currículo e inspiram os alunos; as ideias dos docentes/coordenadores, que influenciam os colegas. Por isso, debater, discutir, criar consensos e caminhos comuns é um acto de boa gestão: traz à superfície ideias que, de outra forma, seriam resistência ou boas intenções mal-entendidas, permite clarificar as dificuldades e envolver pessoas. Nunca conheci um professor que não quisesse o melhor para a escola e para os seus alunos. Também nunca conheci um professor com ideias exactamente iguais às minhas. Mas conheço muitos professores capazes de rever os seus modelos e de sintetizar melhores métodos a partir de ideias edificadas em comum.

Em suma, parte do dia-a-dia do gestor é… gerir gestores, técnicos responsáveis por implementar, com eficiência e eficácia, a visão da escola, pessoas a quem é pedido que colaborem, que trabalhem em grupo, que conheçam a escola e o contexto envolvente, que tomem decisões, que façam a gestão de currículos, pessoas, inovação e recursos.

Por isso, como efeito do modelo de gestão escolar português , o gestor escolar, aquele que decide os papéis que os professores ocupam (o que inspira), é sobretudo um treinador, uma pessoa que influencia e ensina, que colabora e exemplifica, que faz crescer a organização e faz crescer as pessoas da organização."

Nuno Silva - Vice-presidente do Conselho Executivo da Escola Secundária de Montemor-o-Novo - Montemor-o-Novo – Portugal.
nunosilva.av@hotmail.com

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