terça-feira, 24 de novembro de 2009

Gestor de gestores

Este texto foi publicado no livro Educação 2009 (e aqui está relacionado meu sumiço esta semana: a finalização do livro Educação 2010 - edição especial). É também uma forma de agradecer meus leitores aqui do blog e do JV que são de Portugal. Obrigada pessoal!

"Reflexões em torno das implicações do novo sistema de gestão escolar português nas competências dos gestores escolares: treinar para gerir.

Quando um aluno se inscreve numa escola do ensino secundário , fá-lo na certeza de que frequentará um curso que sirva a sua felicidade, fá-lo incentivado pelos seus encarregados de educação, tantas vezes possuidores de pouca instrução, esperançados de que a educação seja uma garantia de um futuro próspero. Uma vez no curso, integra uma turma. O currículo que frequenta não é exactamente igual ao dos restantes alunos, pois os professores podem adaptá-lo às características das turmas. Esta gestão curricular é alicerçada em princípios definidos pela escola e pelo Estado, orientações que pretendem aproveitar as mais-valias locais em favor da qualidade de ensino. Assim, os professores são os primeiros gestores que os alunos conhecem, pessoas que os devem inspirar e treinar sobre os objectivos da escola, reconstruindo-os com eles. Por isso, os professores e os alunos devem ser inspirados e treinados.

A operacionalização dos grandes princípios da escola ocorre no seio do Conselho de Turma, órgão em que se reúnem os docentes que leccionam a mesma turma e que é coordenado pelo Director de Turma, elemento fundamental na ligação entre a escola, professores, alunos e pais, responsável de gestão intermédia, gestor da imagem da escola, de expectativas, de professores e de conflitos. Deve inspirar para a visão curricular da escola. Por isso, deve estar inspirado e treinado.

No novo modelo de gestão escolar, as grandes decisões pedagógicas são tomadas por agrupamentos de professores de áreas científico-pedagógicas semelhantes, os departamentos curriculares, coordenados por um docente com assento no órgão pedagógico de excelência da escola, o Conselho Pedagógico (que é presidido pelo director da escola). É neste órgão, com a contribuição de todos os outros, que deve nascer a visão estratégica da escola, aquela que retrata os caminhos consensuais a tomar, que traduz o que se pretende para o futuro da organização e para cada um dos alunos. É também o órgão que delibera sobre os cursos a oferecer.

O Conselho Pedagógico é constituído por professores titulares , escolhidos pelo director da escola. São, portanto, portadores da sua confiança, supostamente receptivos a inspiração e a treino.

Quanto ao corpo docente, é de salientar que os professores são colocados nas escolas através de concurso público, onde imperam dois factores: a classificação do candidato no curso que o habilita para a docência e o tempo de serviço. O gestor/director nunca sabe se o docente que recebe na escola tem, por exemplo, 10 anos de experiência ou uma experiência repetida 10 anos . A gestão de recursos humanos inicia-se apenas após a colocação dos docentes. O gestor não pode contratar os docentes com um determinado perfil, mas pode afectar os professores a um serviço, segundo o seu perfil de competências. É de salientar que, em Portugal, o corpo docente é estável: em regra, os docentes permanecem pelo menos 3 anos na mesma escola.

O contexto é então o seguinte: o gestor escolar recebe professores/gestores com os quais é necessário construir, técnicos empenhados e interessados, mas que enfrentam dificuldades. O grande número de alunos por turma, o distanciamento dos pais relativamente à educação dos filhos, a imagem social negativa da profissão, a indisciplina, as excessivas tarefas administrativas e a realização de tarefas que exigem competências para lá das de ensino (como a coordenação de grupos) são alguns dos factores geradores de stress docente . É com esses docentes/gestores que o director/gestor escolar estrutura, por confiança, o funcionamento da organização.

Pessoalmente, sei que muitos professores julgam que há reuniões em excesso, encontros dos quais não se tira proveito. Eu vejo potencialidades: vários espaços de construção nos quais podemos ser mais eficazes. Por vezes, é difícil discutir a escola com os colegas professores. Note-se bem: todas as acções dos docentes são regidas pelas suas crenças, pelas suas ideias, pelos modelos que adoptaram. Alguns gestores podem achar que não há tempo para construir visões ou ideias, para debater a escola que há-de vir. Nada mais errado. As ideias gerem a escola: as ideias dos professores, que são gestores do currículo e inspiram os alunos; as ideias dos docentes/coordenadores, que influenciam os colegas. Por isso, debater, discutir, criar consensos e caminhos comuns é um acto de boa gestão: traz à superfície ideias que, de outra forma, seriam resistência ou boas intenções mal-entendidas, permite clarificar as dificuldades e envolver pessoas. Nunca conheci um professor que não quisesse o melhor para a escola e para os seus alunos. Também nunca conheci um professor com ideias exactamente iguais às minhas. Mas conheço muitos professores capazes de rever os seus modelos e de sintetizar melhores métodos a partir de ideias edificadas em comum.

Em suma, parte do dia-a-dia do gestor é… gerir gestores, técnicos responsáveis por implementar, com eficiência e eficácia, a visão da escola, pessoas a quem é pedido que colaborem, que trabalhem em grupo, que conheçam a escola e o contexto envolvente, que tomem decisões, que façam a gestão de currículos, pessoas, inovação e recursos.

Por isso, como efeito do modelo de gestão escolar português , o gestor escolar, aquele que decide os papéis que os professores ocupam (o que inspira), é sobretudo um treinador, uma pessoa que influencia e ensina, que colabora e exemplifica, que faz crescer a organização e faz crescer as pessoas da organização."

Nuno Silva - Vice-presidente do Conselho Executivo da Escola Secundária de Montemor-o-Novo - Montemor-o-Novo – Portugal.
nunosilva.av@hotmail.com

sexta-feira, 13 de novembro de 2009

Moradores decidem o que aprender

Reportagem do Jonral Gazeta do Povo, publicada hoje, dia 13.11.09 (acesse aqui).

Uma comunidade se reúne, discute e decide o que aprender, na área em que desejar. A mobilização parte da Federação das Indústrias do Paraná (Fiep-PR), por meio do Sesi e do Senai, que viabilizam parcerias para colocar em prática os anseios da população na área de aprendizagem. São arranjos educativos locais (AEL) que visam promover o desenvolvimento sustentável em diferentes regiões, a partir da educação. Duas ações em caráter experimental ocorrem no município de Campo Largo, região metropolitana, e no bairro Portão, em Curitiba.

A estratégia é semelhante à usada no ramo industrial, chamada de arranjo produtivo local. Foi a solução encontrada para a crise pela qual o setor passou após a década de 70. Um arranjo produtivo é a aglomeração de empresas de uma mesma região, que atuam numa atividade produtiva comum, junto com empresas complementares e correlatas.
Conselheiros são renomados

De acordo com o superintendente do Sesi-PR, José Anto­nio Fares, a prática tornou-se usual em todo o país e a ideia é usar o modelo na educação. Pessoas da própria comunidade, identificadas em escolas, associações e igrejas, são reunidas para mostrar as necessidades educativas daquele local.

Os arranjos educativos rompem com o modelo tradicional pedagógico imposto pela educação formal. Têm funcionado em várias cidades do país como forma de promover o desenvolvimento sustentável de comunidades pobres. Geralmente são viabilizados por entidades do terceiro setor (ONGs). É a primeira vez que o sistema “S” está à frente de uma mobilização deste porte e o foco não está apenas em locais de baixa renda. “A aprendizagem ocorre de forma mais efetiva e vai ao encontro das práticas do cotidiano do ser humano”, diz Fares.

Embrionário

O projeto no Paraná começou há cerca de quatro meses no município de Campo Largo. Cerca de 200 pessoas da comunidade estão envolvidas, sendo que 12 jovens estudantes de escolas públicas e privadas passaram a receber oficinas de capacitação de comunicação. O curso está apenas na segunda semana. Mas os jovens têm a expectativa de promover a divulgação de todos os eventos culturais que ocorrem na cidade.

As aulas são ministradas pela jornalista e professora universitária Gesline Giovana Braga, que mora na cidade. Ela explica que os estudantes ainda terão aulas de fotografia e no fim das atividades, em dezembro, irão desenvolver programas para um rádio poste, que vai fazer parte de uma ação cultural viabilizada pelo projeto.

Até lá, vários meios de comunicação estão sendo experimentados. Os estudantes do ensino médio Thaísa Mariane de Souza e Luccas Martins Fonseca aprendem a criar um blog e fazer perfis em redes sociais, como o Twitter. “Para mim é uma experiência nova, nunca tinha trabalhado com ação social”, afirma a estudante.

O analista técnico do Senai Ângelo Guimarães Simão, que faz parte da equipe do arranjo educacional de Campo Largo, explica que a iniciativa busca envolver a comunidade local, por isso a preferência por aproveitar a experiência de uma jornalista que mora na cidade. Simão ainda ressalta que outra ação na área cultural está sendo viabilizada, além da criação de um Fórum de Gestão pela própria comunidade. “É dele que vai sair a identificação das outras necessidades para mais ações”, diz.

No bairro Portão, o lançamento do arranjo educativo ocorreu há cerca de 20 dias. Arranjadores sociais, que irão mobilizar a comunidade, ainda estão sendo identificados. Interessados em participar como voluntários ou parceiros podem entrar em contato pelo site www.fiepr.org.br.

quinta-feira, 12 de novembro de 2009

Você é ou está professor? - Final

A percepção de quem faz o recrutamento
A diretora educacional do setor de educação da Província Marista do Brasil Centro-Sul, Ana Tereza Spolini, no dia-a-dia do seu trabalho tem a função de orientar pedagogicamente a educação básica e escolher professores capacitados para atuarem nas instituições que congregam a Província. No momento da contratação de um professor, ela conta que procura o brilho no olhar, a emoção na voz e o discurso empolgante. “Se há uma certa inquietude corporal, se a referência aos alunos e a seus familiares é feita com cuidado e respeito, então, as chances de esse profissional ser e não estar professor são muito grandes. Acompanhe entrevista:

Como detectar numa entrevista de trabalho se o profissional “é” ou “está” professor?
É comum se observar distâncias entre o que alguém fala e o que ele é. Geralmente, o que se é como professor e o saber pedagógico que se tem manifesta-se pelas ações. Nesse sentido, é preciso prestar muita atenção a indicadores, que não necessariamente estão explicitados no discurso. Com a fala acompanham vários sinais não-verbais. Então, é preciso saber ler esses sinais, essa outra forma de expressão. É preciso saber ouvir o não dito, o inaudível, o invisível. Na minha experiência, procuro “ouvir” a paixão pela profissão, pelos alunos, pelo saber. “Ler” outras linguagens. O nosso corpo manifesta o que sentimos. O olhar, o tom da voz, o peso nas palavras, os gestos, os silêncios são focos de minha atenção. Assim, se o “olho brilha”, se a fala fica mais empolgante em algum momento e se há emoção na voz, então as chances de esse profissional ser e não estar professor são muito grandes.

E no dia-a-dia em sala de aula?
No dia-a-dia, a melhor forma, ao meu entender, é a de acompanhar a relação do profissional com os alunos e com o saber, a gestão da aula. O planejamento das atividades, o não se contentar apenas em verificar o que vai “dar” no dia, mas se preocupar bem mais com o sujeito que vai aprender a “matéria”, conhecer bem as crianças ou os adolescentes, seus momentos psicológicos, seus interesses, suas dificuldades são bons indicadores. O “ser” professor também pode ser notado no processo de aprendizagem. Se houver vínculo, se houver compromisso entre professor e aluno e seus familiares, provavelmente a aprendizagem se dará de forma mais natural. Enfim, afirmar se alguém “é” ou “está” professor requer convivência, partilha, observação.

Quais características são avaliadas no processo de seleção?
Há de se verificar competências relacionadas à leitura, à escrita, à comunicação oral. Os motivos pelos quais alguém quer trabalhar nessa área devem ir além “do gostar de crianças ou de adolescentes”. É fundamental saber, ainda, como a pessoa poderia ser um profissional “diferente”, com que modelos gostaria de romper, qual sua preocupação com as problemáticas atuais da humanidade. Costumo pedir relatos de experiências que deram certo e que não deram certo. Percorrendo os argumentos é possível analisar como o candidato lida com problemas, suas iniciativas, seus modelos de relacionamentos.

Qual a sua definição para aquele que “é professor”?
É o profissional que faz da docência sua opção primeira, a escolha com predileção e convicção, vocação, “dar certo”, acreditar na educação. Realiza satisfatoriamente a dimensão menos interessante da profissão (burocracias, por exemplo) com responsabilidade e autonomia por acreditar fazer parte integrante dos processos pedagógicos. Para esse professor, a aula é desejada, cada turma é desejada por ser única, o saber é desejado por ser intrigante, os pais são desejados e entendidos como parceiros. A reflexão com seus pares, o estudo, a investigação são desejados. Há uma força energética que mantém o entusiasmado acima do cansaço, a esperança acima das dificuldades, a procura acima de todas as respostas.

E “estar” professor?
Em geral, esse profissional apresenta dificuldades para cumprir as desdobras da profissão. Tolera a sala de aula, a aula que precisa dar. Esse sentimento de tolerância ocupa o espaço da esperança. Está sempre ligado em outras possibilidades profissionais, por isso, não se entrega totalmente ao seu ofício de mestre. Não constrói vínculos. Não tem disposição para melhorar a profissão, faz o mínimo, não é generoso. Formam esse grupo dois tipos de profissionais: os que sabem estar aí por conveniência e os que acreditam ter a vocação. Nesse segundo caso, o gestor precisa ajudá-lo a perceber-se como alguém que deve partir para novas buscas profissionais. Ajudar a “auto-avaliar-se”.

Como o aluno se beneficia com aquele que "é” professor?
A probabilidade de estabelecer vínculos afetivos é maior. O aluno tem no professor um guia, um orientador. Acredita nele. Sente no professor a paixão de ensinar e a paixão pelo saber e se deixa contagiar. Motiva-se, interessa-se pela sua disciplina, pela função que a escola representa para ele. Aprende mais e se modifica. Procura-o nas horas incertas. Confia nele. Admira-o. Sente-se acolhido. Aceita suas exigências porque não há dúvidas quanto às intenções. Muitos alunos dizem: quero ser igual a ele.

Dica de Leitura - Pedagogia da autonomia
O educador e pensador Paulo Freire, na sua última obra em vida “Pedagogia da Autonomia: saberes necessários à prática educativa” e que agora será relançada em memória aos dez anos de morte do educador, discute e dialoga com os professores e traz uma contribuição passada com muita sensibilidade e paixão em relação ao compromisso como educador. Paulo Freire enfatiza a necessidade de uma reflexão crítica sobre a prática educativa. Ele ressalta o quanto um determinado gesto do educador pode repercutir na vida de um aluno e da necessidade de reflexão sobre o assunto, pois segundo ele ensinar exige respeito aos saberes do educando.

*Os créditos do texto estão no post parte 1.

quarta-feira, 11 de novembro de 2009

Você é ou está professor? Parte 2

Os tipos de professores nas IES
A professora de Filosofia da Educação da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), Doroti Martins, avalia os diferentes tipos de docentes das universidades. Para ela há basicamente duas figuras. O primeiro é aquele educador de fato, que se preocupa com os alunos, que dialoga, tem conhecimento “fantástico” na sua área específica e se preocupa com a questão pedagógica. “Esses são excelentes mestres”, diz. No entanto, ela avalia o outro estereótipo que procura a academia não com a mesma dedicação e competência que cabe na atuação como professor, mas porque o seu maior objetivo ali é pela pesquisa. “Como o Brasil é um País que não investe em cultura, um dos únicos lugares que resta para desenvolver a pesquisa é permanecer nas universidades, principalmente, as públicas”, avalia Doroti, que já foi secretária de educação do município de Florianópolis.

O professor de escola pública
Ela cita, ainda, outros professores, como aqueles que ensinam por conta do status ou procuram a segurança financeira. A busca pela estabilidade é um ponto forte de professores que procuram a rede pública, mas segundo Doroti, é visível o grande número de educadores que fazem questão de trabalhar nestas escolas por princípio e compromisso com o serviço. “As condições de trabalho na escola pública estão num nível de deteriorização absurdo, o alunado possui um grau de complexidade muito maior”, diz.

Ela explica que os contratos desses professores acabam se limitando às horas/aula em sala de aula, não permitindo pagamentos extras de hora atividade para o professor planejar e programar as suas aulas. “Esses professores, sim, que passam por todos esses problemas, seguramente ‘são professores’, independente se busca nestas escolas a estabilidade”, afirmou.

O profissional liberal
Já os profissionais liberais, que procuram a docência para receber um extra a mais ou porque não conseguiram colocação no mercado de trabalho, esses “estão professores”, na opinião de Doroti e não podem ser chamados de educadores no sentido pleno da palavra. “É uma questão estrutural no mundo do trabalho, não são educadores”, diz.

“Para ser grande é preciso ser inteiro”
O professor de Inglês do Colégio São Luís, em São Paulo, José Garcia Ghirardi, começou a lecionar aos 23 anos. Antes disso, achava que a sua vocação era para ser advogado. Já nos primeiros anos nesta carreira, percebeu que não era bem aquilo que queria para a sua vida. A docência apareceu na sua vida por acaso, quando no Colégio São Luís, foi cobrir como professor substituto numa situação emergencial e nunca mais saiu. Já são 21 anos na mesma instituição. “Me senti tão à vontade em sala de aula, neste dia, que resolvi apostar na carreira de professor”, conta.

Por aí não se tem dúvidas que Ghirardi “é” professor e neste processo ele diz que trabalha sempre visando o coletivo. “A aula não é só o professor. A aula é a história dos alunos que está acontecendo. O professor tem que perceber que a aula tem uma significação humana para os alunos.”

Para ele, “ser” professor é diferente de “estar” professor, principalmente, no que tange respeitar a diversidade de seus alunos. “Todo ser humano possui características diferentes e é importante que a escola acolha esta diversidade, não tem forma para ser professor, como não tem forma para ser aluno”. E quando Ghirardi exerce as suas atividades como professor, ele conta que sempre lembra da frase de Fernando Pessoa: “Para ser grande é preciso ser inteiro”.

*Créditos do texto no post anterior.

terça-feira, 10 de novembro de 2009

Você é ou está professor? - Parte 1

Hoje comecei o dia tão bem... Recebi dois e-mails que provam que eu não estou sozinha em busca de melhores professores, mais conscientes de suas responsabilidades e direitos. Segue um texto publicado na revista Profissão Mestre de Maio de 2007, por Brisa Teixeira. Vou dividí-lo em 3 partes para não ficar muito grande ok?

A paixão, a necessidade, o status, o comodismo, a vocação. Inúmeras razões levam uma pessoa a seguir a carreira de professor. Às vezes procuram por status e acabam se descobrindo apaixonados; outras vezes procuram pela paixão e com o tempo ficam acomodados. Os motivos que levam uma pessoa a ser ou estar professor são inúmeros e as vantagens e desvantagens não param na insatisfação ou realização pessoal de cada um; é o aluno quem vai se beneficiar ou não dessa escolha.

Temos o caso de Heloísa Helena e Geraldo Alckmin, dois políticos candidatos à presidência, que voltaram a lecionar. Como se sabe, eles não alcançaram os seus ambiciosos objetivos, mas estão tranqüilos na nova fase em que se encontram. Agora, se eles são os estão professores, aí só assistindo algumas aulas para saber.

Muitos estão fazendo curso de formação de professores depois de adulto por acharem que nessa área não falta emprego. Há gente séria que tentou antes outras formas de contribuir com a reconstrução de um mundo mais justo e permaneceu pouco no emprego. Você deve, também, conhecer alguém que procurou a profissão porque trabalha menos e ganha-se proporcionalmente mais ou que estudou para fazer concurso para garantir uma estabilidade para o resto da vida.

A diretora educacional da Província Marista do Brasil Centro-Sul – que congrega 16 colégios de várias regiões do Brasil – Ana Tereza Spolini, avalia todos esses tipos de professores espalhados no mercado, mas prefere não generalizar pensando que todos esses são simplesmente aproveitadores dos benefícios de uma profissão. “Já vi profissionais da educação que iniciaram sua vida com base nessas motivações e que se tornaram ‘professores vocacionados’. Com brilho no olho e tudo”, destacou.

Segundo ela, em todos os ramos do trabalho há os que estão nele por conveniência ou por circunstâncias e há os que estão por opção. “Para ensinar crianças e adolescentes, professores são necessários. Professores que são, não professores que estão.”

A diferença a partir da Filosofia
A Filosofia ajuda a entender a questão. Para o filósofo José Roberto Neves D'Amico aquele que "é professor" foi escolhido pela profissão e o que "está professor" a escolheu, talvez pelo "status", pela fantasia do poder que a profissão sugere, ou pela possibilidade de ser uma mera complementação de renda. Ou seja, conclui D’Amico, o "ser professor" é aquele que cativa naturalmente, que se empolga espontaneamente com a possibilidade de proporcionar aos alunos conteúdos que sejam apropriados às suas visualizações. “O aluno deve sair da sala de aula ou dos encontros com os professores, satisfeito com os conteúdos debatidos. Não estamos mais no tempo em que o aluno nada tem de importante a contribuir”, avalia o filósofo.

Na prática, D’Amico acredita que exercer o “ser” professor é extremamente gratificante quando este contribuiu na formação pessoal e, por conseqüência, na formação de outros. Por exemplo, explica ele, o “ser professor” não deve tratar as várias turmas da mesma maneira, mesmo que a disciplina seja a mesma. As turmas são formadas por diferentes alunos e têm interesses e características diferentes. “O ‘ser professor’ deve ter sensibilidade para percebê-las e deve adaptar a disciplina às necessidades e perfil de cada turma, caso contrário, o professor não terá o respeito, a credibilidade e a simpatia devidos perante a turma. Se não o fizer, estará agindo de maneira homogênea, que é o status que o ‘estar professor’ dá às disciplinas que ministra”, diz.

Investigação filosófica
Para a coordenadora do Centro Brasileiro de Filosofia para Crianças e professora universitária e de ensino médio do Estado, Dalva Garcia, esta suposta classificação entre ser e estar não é tão simples quando entra-se no terreno fértil, porém perigoso da investigação filosófica.
“Se tomarmos como referência a filosofia aristotélica, o que chamamos de estado estaria na categoria do acidental e, portanto, distante das afirmações sobre a natureza ou essência das coisas que nos permitiria chegar aos conceitos relevantes ao nosso processo de conhecimento verdadeiro”, diz.

Para ela, se abordar com rigor ou profundidade os fundamentos da filosofia aristotélica fica clara a pretensão filosófica de diferenciar a essência da aparência. “O fato é que esta distinção entre essência e aparência, entre natureza e estado é questionada na filosofia contemporânea”, articula.
O exemplo mais contundente é o de Sartre, segundo ela. Para o filósofo francês, não poderíamos atribuir ao humano uma essência porque "a existência precede a essência". “Na existência, no nosso fazer, nos tornamos o que somos.”

Dalva revela que a solução não seria se lamentar dos acidentes que o "jogaram" na sala de aula, mas pensar com seriedade sobre o que é possível fazer consigo e com os outros diante desse estado de coisas em que se envolveu, também, por escolha. “O cerne desse problema não seria o do ser ou do estar, mas, sim, perguntar com honestidade sobre o que nós estamos fazendo e por que fazemos da forma que estamos fazendo”, afirma.

Para ela, não se trata de classificar quem é professor e afastar da ação educacional quem, por acidente, está professor, mas de refletir, com freqüência, se estando ainda quero ser. “Dessa forma, posso responder que não apenas já estive nas duas situações. Mesmo porque isso é fundamental para repensarmos nossa ação educacional e nossos anseios e perspectivas pessoais e profissionais.”

quarta-feira, 4 de novembro de 2009

Cursos gratuitos no SENAI

Recebi esta nota por e-mail da colega Meier Frangiotti Cesca solicitando divulgação para professores e alunos. O texto é do G1 (cliquem aqui para ver as tabelas de cursos e vagas após lerem sobre o que se trata ok?)

"O Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial de São Paulo (Senai-SP) abre inscrições nesta segunda-feira (26) para 32 cursos técnicos gratuitos em 62 escolas instaladas em 44 municípios do estado (veja lista abaixo). No total são 4.370 vagas, sendo 1.737 na capital, 789 na Grande São Paulo e 1.844 no interior. As aulas começam no primeiro semestre de 2010.

Os cursos têm em média duração de 1,6 mil horas (o equivalente a dois anos), incluindo estágio supervisionado, que é obrigatório.

No ato da inscrição, os candidatos devem apresentar cédula de identidade original e comprovante de conclusão do ensino médio ou documento que comprove matrícula em curso que permita concluir o ensino médio até a data do início das aulas. A inscrição custa R$ 35,00 e inclui o manual do candidato.

O candidato poderá se inscrever em uma única habilitação, exclusivamente na Escola Senai em que pretende realizar o curso, até 6 de novembro. Poderá também se candidatar para outro turno do curso pretendido em 2º opção.
Não serão aceitas inscrições de alunos regularmente matriculados em cursos oferecidos gratuitamente pelo Senai-SP e que pretendam cursá-los simultaneamente.

A prova de seleção, que terá duração de 2h30, será realizada dia 29 de novembro e terá 60 questões de múltipla escolha em nível de conclusão do ensino médio. Serão cobrados conhecimentos de língua portuguesa (20 questões), matemática (20 questões) e ciências da natureza (física, química e biologia), também com 20 questões.

O candidato deve comparecer com guia de inscrição, cédula de identidade original ou outro documento oficial de identidade que contenha fotografia do candidato, caneta esferográfica azul ou preta, lápis e borracha.

O gabarito será divulgado no site www.sp.senai.br a partir das 14h do dia 30 de novembro. A lista dos aprovados poderá ser conferida no mesmo site, a partir das 14h do dia 21 de dezembro. Os aprovados na primeira chamada deverão se matricular nos dias 21, 22 e 23 de dezembro e os candidatos suplentes, no dia 28 de dezembro.

Mais informações podem ser obtidas pelos telefones (11) 3528-2000 (capital e Grande São Paulo) e 0800-551000 (outras localidades), além do site www.sp.senai.br."

Boa sorte a todos!

terça-feira, 3 de novembro de 2009

Violência sem fim, até quando?

Bom dia pessoal! Infelizmente, o post de hoje é um pouco pesado, mas muito necessário. A violência tem assustado, acredito que não só a mim, mas a maior parte da população.

De repente, me ocorreu que as pessoas começaram a pensar que a vida é como nas novelas, filmes e jogos de videogame - pode-se matar que depois a pessoa tem a chance de voltar e recomeçar da onde parou...

Onde foi parar o valor da vida? O que será que nossos alunos pensam a respeito dela e da morte? Como encaram esta realidade? Todos os dias várias famílias tem suas pessoas queridas retiradas de maneira brutal - muitas vezes - de seu convívio diário. Como isso reflete nas crianças? E na sua rotina escolar?

Professores, meus colegas, me ajudem com estas respostas. Eu mesma tenho sentido um aperto no peito todos os dias por causa deste assunto... Já repararam nas notícias dos jornais? De 10 notas, 8 são coisas ruins que aconteceram, desde mortes naturais até assassinatos e desastres naturais. Isso é tão pesado, tão ruim para nós que somos adultos, imaginem para as crianças...

E onde vamos parar? Aliás, acredito que a pergunta principal seja o que podemos fazer para isso parar? Infelizmente, é um assunto que precisamos começar a abordar em nossas salas de aula, com apoio de psicólogos e pessoas especializadas - claro!

Desculpem começar a semana assim, mas é até um desabafo, uma preocupação. Um assunto importante a se pensar.

Boa semana e aguardo suas respostas e cometários.