quarta-feira, 7 de outubro de 2009

Travessia - Plano de aula de literatura

Gostaria de publicar um texto interessante, que pode ajudar em aulas de literatura. É da Professora Maria L.Vicari de Siqueira. (Contato: vicari@fema.com.br)

"Abrem-se, uma a uma, as asas do velho livro que traz nas mãos. O menino tem quatro anos, ouve a voz da mãe e vê-se dentro da floresta. “Eu vou... Eu vou...” Surpreende-se quando encontra Branca de Neve, tão branca e linda.

Agora ele já tem dez anos e, ora flutua no tapete voador, ora nada ao lado da grande baleia que engoliu Gepeto. As páginas viram, e já não é um menino de dez anos. Ele e o tempo correm, e as páginas passam... passam... O coração bate mais forte, porque está apaixonado por Clarissa. Mais um capítulo, e o corpo se transforma. Existem pecados nos livros que os mais velhos dizem que ele não deve ler. Mas ele degusta cada palavra e deleita-se. Agora é o vento que vira mais uma página, e o jovem de vinte anos emociona-se com Bibiana, tem ciúme do Capitão Rodrigo, perde-se nos olhos de Capitu...Tantos amores!

O homem feito ainda tem medos, mas entra pelas veredas do Grande Sertão.Quer saber quem é Diadorim, quer saber do diabo no meio da gente e faz a travessia por sugestão de Guimarães Rosa.

Ele e o tempo correm... Vê-se com quarenta anos, mas quer voltar com Eça, Alencar, Azevedo.Voa para Saramago, porque as palavras o levam por caminhos sempre novos, diferentes.

Um breve cochilo e está com cinqüenta anos... Bebe cada palavra de Garcia Marques e seus Cem anos de Solidão. O homem se espanta e percorre caminhos que o conduzem de volta à infância colorida, ao colo da mãe. Reconhece Narizinho e chora e ri. Seca as lágrimas e viaja com Dom Quixote e Sancho Pança, mas já desistiu de combater moinhos de vento, invisíveis. Clarice dedica-lhe palavras e o faz acordar aos setenta. Agora ele é pleno e vê as sementes que deixou pelo caminho. Não sente vergonha de ser velho. Suavemente acomoda o neto no colo e o faz encontrar Branca de Neve, branca e linda... E o velho descobre outro mar com Hemingway, mas lá está Veríssimo, que provoca seu riso com as Mentiras que os Homens Contam. Aproximam-se João Cabral, Quintana, Drummond, Scliar. Bem-vindos todos!

Agora, aos oitenta anos, recosta-se no travesseiro e o livro descansa em seu peito. Ele também descansa. Foram-se os medos e está tranqüilo. E é assim, com O Tempo e o Vento passando pela janela, que ele se sente cada vez mais feliz porque, sem se libertar da criança que existe dentro dele, outra viagem está por começar. Num momento de lucidez plena, sabe por quem os sinos vão dobrar amanhã.

O livro escorrega lentamente. Lutar contra moinhos de vento? Seria luta vã...É chegado o momento de fazer a viagem definitiva... Para o País das Maravilhas, talvez. E embarca."

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