terça-feira, 16 de junho de 2009

Resenhas de livros para se usar na sala de aula

Bom dia pessoal!

Hoje temos 4 resenhas de livros muito interessantes. Elas são feitas por Tiago Eloy Zaidan e publicadas no canal Biblioteca do site Profissão Mestre. Lá você poderá encontrar várias outras resenhas.

Como usar? Leia as resenhas para saber sobre o que se trata o livro. Posteriormente, se encaixando na idade de seus alunos, utilize o tema. Você e sua turma devem ler o livro e, ao final deste passo, fazer um debate sobre a obra. Elabore questões que façam os estudantes refletirem e que as respostas não estejam em qualquer resenha ou resumo - que eles possam encontrar na internet e não precisem ler o livro.

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A escrita cativante do escritor mineiro Fernando Sabino (1923-2004) faz-se presente com toda a sua força em O menino no espelho. O modo despojado e leve com que narra fatos aparentemente corriqueiros, também. Entretanto, em se tratando de um romance de recordações de seus tempos de criança em sua terra natal, é natural que alguns episódios sejam perceptivelmente fantasiosos. Trata-se, seguramente, de uma obra em que a naturalidade da narração não diminui em nada o clímax da história. Pelo contrário. A ingenuidade dos pensamentos do protagonista Fernando, criança, comove o leitor.

Sua narração começa em meio a um temporal, que denunciava grosseiramente as goteiras de sua bucólica residência. Seu pai, sua mãe e irmãos, todos fazem parte da trupe de personagens. Enquanto brincava com as poças de água, provocadas pela chuva, o mesmo Fernando se depara com um homem que conversa brevemente com ele, despedindo-se em seguida sem revelar o nome. O menino não sabia quem era aquele misterioso ser. Somente no final do livro é revelado ao leitor o paradeiro do individuo. Tratava-se do próprio escritor, já adulto, que em meio ao lirismo da prosa de Sabino trava em determinado momento um singelo contato com a sua versão mirim. Mesmo cercado por fatos prosaicos, tal ocorrido oferta bela dose de emotividade à obra.

O surrealismo presente em O menino do espelho não se restringe à conversa atemporal do homem com a criança. Em dado momento da narração de suas peripécias juvenis, Fernando brinca e conversa com o seu reflexo no espelho, que por sua vez, ganha vida e passa a agir em vários momentos como o seu duplo. Tornam-se grandes amigos. Porém, quando descoberto por terceiros, o reflexo retorna ao seu mundo, o espelho, de onde jamais sairia novamente. Outros saudosos episódios infantis são contados primorosamente, como o primeiro amor, sua relação com os colegas da escola, a torcida pelo América de Belo Horizonte, o seu clube do coração, as brincadeiras com a amiguinha Mariana e o apego aos animais de estimação que povoavam a casa: um cachorro, um coelho, um papagaio e uma galinha, a quem batizou de Fernanda e salvou da “degola” na véspera desta se tornar o prato do dia na refeição.

O menino no espelho mostra que, em 1982, anos após a publicação de O grande mentecapto, obra prima de Sabino, o autor ainda esbanjava habilidade literária.

Livro: O menino no espelho
Autor: Fernando Sabino
Editora: Record

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A hora da estrela trata da bisonha saga da nordestina migrante de nome Macebeia, narrada por outro personagem, Rodrigo S. M. A vida da protagonista no Rio de Janeiro é medíocre: trabalha como datilografa e vive com um mísero salário que não lhe permite uma vida digna. Sua refeição diária é um cachorro-quente com Coca-Cola.

Um homem chama a sua atenção. Olímpico, também nordestino e autor de um crime em sua região natal. Tal personagem representa um homem inseguro que busca mascarar-se no rompante demasiadamente petulante e truculento. Um esboço de namoro entre os dois é observado, no entanto, a melhor amiga de Macabeia, uma “loira oxigenada” acaba “tomando” seu companheiro. O espírito conformista da protagonista, Macabeia, contribui para que ela não fique magoada, a ponto de sequer romper relações com a amiga.

Sua existência singela é “coroada” por um atropelamento, causado por uma Mercedes, levando-a a morte. O fato mortal desenrolá-se logo após a sua visita a uma cartomante, que havia previsto um futuro, para breve, com dinheiro, luxo e um namorado oriundo do exterior.

Com A hora da estrela, permeada por traços marcantes de pós-modernismo, Clarice Lispector aponta-nos, detalhadamente, o destino de uma personagem que representa toda uma multidão, esquecida pela obtusidade do modelo de desenvolvimento econômico hegemônico.

Livro: A hora da estrela
Autora: Clarice Lispector
Editora: Rocco

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Para ler o Pato Donald é uma obra filosófica chilena que já se tornou clássica, sobretudo no tocante ao assunto que pretende abordar: as histórias em quadrinhos como meio de comunicação de massa. Primeiro porque foi uma das mais célebres e pioneiras sobre a análise do tema: doutrinação nos quadrinhos. Em segundo, não há obra ou mesmo teses acadêmicas abordando o achaque que não passem por esse volume. Pela empreitada editorial Ariel Dorfman e Armand Mattelart, os autores, seguramente foram expurgados do clube Disney.

Aqui, Walt Disney é novamente devassado. Gênio capitalista – muito mais empresário que desenhista propriamente dito -, sua figura causa ódio ou paixões. No caso de Para ler o Pato Donald, a visão é implacável. Não é a biografia do criador de Mickey Mouse que está em questão, e sim a sua obra, mais especificamente as revistas em quadrinhos.

Análises críticas minuciosas detectam e explicam o que realmente está por trás dos balõezinhos das falas dos personagens. São observadas tiradas de etnocentrismos grosseiros e até mensagens identificadas pelos autores como doutrinárias! Depois da leitura de Para ler o Pato Donald o clube da Disneylândia não será mais identificado, apenas, como uma nação de animaizinhos angelicais.

Livro: Para ler o Pato Donald
Autores: Ariel Dorfman e Armand Mattelart
Editora: Paz e Terra

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A revolução dos bichos é um louvável clássico contemporâneo lançado em 1945. Seu autor, Eric Blair, mais conhecido pelo pseudônimo de George Orwell, apesar de socialista, não possuía constrangimento algum em criticar o comunismo quando achasse necessário, da mesma forma que criticava o capitalismo.

No livro, é narrada a história dos animais do galinheiro Solar, que eram oprimidos de forma totalitária por seu proprietário. Unidos, os bichos passam a planejar uma espécie de revolução. O sofrimento de anos, somado a idéias libertárias, conduz os rebeldes até a vitória. Mais tarde, com o poder devidamente tomado pelos animais, é chegada a hora de trabalhar.

Os líderes – dois porcos – mostram possuírem divergências ideológicas. Um deles, justamente o mais truculento, expulsa o companheiro e vence o imbróglio. A partir de então a revolução é lastimavelmente deturpada, e os bichos, aos poucos, voltam a viver penosamente e sob um autoritarismo repulsivo. Uma das frases do livro exemplifica bem o lema da desvirtuação do movimento iniciado com as melhores das intenções: “todos os animais são iguais, mas alguns animais são mais iguais do que os outros”.

Com a deposição do maldoso humano, os porcos passam a administrar a fazenda, compondo uma casta privilegiada. No fim, a magnífica fábula denuncia: “já não era possível distinguir quem era homem e quem era porco”.

Com a leitura desta metáfora é impossível não ser remetido ao movimento revolucionário ocorrido na Rússia czarista em 1917. A revolução fora deturpada como em A revolução dos bichos e os líderes subseqüentes a Lênin – Trotski e Stálin – possuíam divergências ideológicas. Stálin “despachou” o seu “camarada” e passou a administrar autoritariamente a União Soviética de então. Note a semelhança dos fatos com a saga retratada no livro. O caso do regime stalinista russo certamente inspirou a obra de Orwell.

Livro: A revolução dos bichos
Autor: George Orwell
Editora: Companhia das Letras

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