terça-feira, 10 de março de 2009

A visão dos dedos: as dificuldades do Braille

Durante muito tempo, acreditou-se que a única forma de comunicação escrita e lida destinada aos deficientes visuais fosse o Sistema Braille e, por esse motivo, ainda encontramos tal estereótipo na mente das pessoas. Quando, em minhas palestras, aulas e cursos de capacitação, demonstro a importância deste código na vida acadêmica, profissional e social dos cegos, não deixo de apontar suas falhas, assim como qualquer outro modelo de escrita e leitura, no entanto, sem a intenção de suprir essas defasagens por algum meio que provoque respostas pouco eficazes. Não podemos considerar, apenas, as preferências particulares por determinado recurso, na tentativa de substituir, com total eficiência, a maneira de tocar e sentir as letras, de entrar em contato com a ortografia e gramática, com as disposições no papel, com o virar de páginas, enfim, com o movimento de mãos e dedos num sincronismo capaz de revelar as mais complexas construções conceituais.

As vantagens do Sistema Braille vão muito além da conquista da linguagem escrita e lida, ou seja, da alfabetização. Para o cego, alfabetizar-se em Braille significa ler o mundo que o cerca e conseguir libertar-se da prisão intelectual que está contida em milhares de páginas impressas em tinta ou manuscritas. Não ter uma informação ao seu alcance representa uma conversa entre duas pessoas que falam idiomas diferentes e não compreendem uma a outra. Por mais que a mensagem esteja contida no diálogo, ou seja, por mais clara que seja a informação, tanto a pessoa que não conhece o idioma do interlocutor, como o cego que não lê impressos em tinta, são prejudicados pela falta de acessibilidade, comprometendo sua interpretação e suas ações . Reside a& iacute; a maior falha do sistema de leitura tátil e escrita: a necessidade de uma mediação.

O Braille, apesar de ser acessível a todos, independente da ausência ou presença de visão, torna-se um sistema fechado quando necessita de uma pessoa que "transcreva" os escritos para serem interpretados por quem não conhece sua estrutura lógica. No caso, os textos em relevo destinam-se a outros deficientes visuais, a quem os produz, e ainda, aos videntes (quem enxerga), sendo este último grupo o que mais necessita da mediação, já que existem poucas pessoas que fazem a leitura visual das produções. Desta forma, um profissional especializado assume o papel de transcritor, reproduzindo em tinta o conteúdo dos escritos em Braille. Isso não implica em que somente alguns possam aprender esse código, o que diferencia um vidente de um cego são os processos e canais perceptivos u tilizados para se atingir o objetivo: o primeiro grupo faz as leituras e produções utilizando a visão e o segundo, o tato.

Junto à mediação surge um outro agravante. Como vimos, a presença de profissionais especializados em grafia Braille ainda é raro em nosso país, o que requer um esforço e um investimento voltado diretamente a essa capacitação. Se não existem multiplicadores, o atendimento desses educandos, em escolas regulares, será prejudicado e, por isso, a inclusão dos cegos tem acontecido sem qualidade. Cabe aos profissionais buscarem meios para atingir esse diferencial e, se tornarem os agentes multiplicadores em grafia Braille. Quanto mais pessoas tiverem o acesso a esse meio de leitura e escrita, melhores serão os resultados trazidos por essa libertação intelectual, cujas relações homem X cultura ganham outras proporções e resultados.

No entanto, de nada adianta uma expansão desregrada e sem compromisso com as especificidades que tal acompanhamento exige. Decodificar letras em símbolos, símbolos em letras não é o suficiente para subsidiar uma prática comprometida. Exige-se do profissional um conhecimento sistemático de como se processa o esquema perceptivo do deficiente visual, estimulação tátil, técnicas de escrita, técnicas de leitura, normas de produção de materiais, aplicação e manipulação de instrumentos necessários à produção acadêmica, entre outros. Desta forma, trazemos outro aspecto que contribui para afastar o cego do Braille e vice-versa: falta de qualificação profissional. Muitas vezes o ensino deste método é visto como u m processo comum de alfabetização, o que não é. Torna-se freqüente ações repetitivas de reprodução dos sinais, sem obedecer critérios de distribuição no papel, de posicionamento de mãos, de intervalos entre atividades para não provocar cansaço muscular e confusão tátil pelo constante atrito, supressão de etapas como estimulação tátil entre outros absurdos próprios da falta de orientação para tais acompanhamentos. O deficiente visual precisa se sentir confortável e seguro, suas manifestações como usuário devem ser consideradas peças chave durante todo o período de alfabetização ou reabilitação, reforçando as ações conjuntas entre usuários, profissionais, comunidade escolar e familiares, entre experiênc ia e técnica, entre prática e teoria...

Outros fatores de ordem técnica: além da pouca divulgação do Sistema entre profissionais que enxergam, existe a falta de incentivo, também bastante visível entre os familiares dos usuários. Resistência dos próprios cegos em aprenderem essa forma de escrita e leitura, muitas vezes, pela não aceitação de sua condição ou ensino inadequado de acordo com o estágio em que se encontram, tendo em vista as diferenças entre o entendimento do método por crianças , e adultos cegos ou que já enxergaram e videntes.

O Braille não se constitui como um sistema tão agradável e atraente ao tato quanto os desenhos, formas e escritos são para a visão. A distribuição lógica do texto no papel, armazenamento dos materiais, de forma a não danificar o relevo, a encadernação dos livros, a força empregada ao marcar o relevo, grande volume das obras e descrições com níveis satisfatórios de compatibilidade com as formas reais, transposição de imagens para textos, são questões fundamentais a serem levadas em consideração durante todo o processo. Elevado custo dos materiais, volumes excessivamente grandes: cada folha em tinta corresponde, entre 5 a 7 folhas em Braille. Falta de obras, sejam didáticas ou literatura, produzidas neste código, pouco investimento, muita demanda na procura de materiais, tempo de leitura tátil maior do que a leitura feita visualmente. O tato percebe letra a letra (sentido analítico), reconhecendo fragmentos da informação enquanto a visão percebe o global. Alfabetização mais lenta e que requer maiores investimentos tanto financeiros como metodológicos e didáticos, empenho e dedicação profissional.

São questões a serem pensadas e repensadas valorizadas e adaptadas à realidade dos seus usuários.

Diante do exposto, não devemos medir esforços para engrandecer, ainda mais, a genialidade do Sistema Braille e sua importância na vida dos cegos. Essa independência cultural, libertação intelectual e desempenho profissional são as maiores provas de que, independente das dificuldades encontradas pelo caminho, o certo é que o Braille foi e será a forma de escrita capaz de romper as barreiras da acessibilidade à informação, cujas percepções e sensações se expandem e se integram em um único foco, o do convívio entre a diversidade, um entendimento coletivo e um conhecimento comum a todos nós, envolvidos direta ou indiretamente nessa busca pela qualidade no ensino dos cegos.

O texto acima é de minha amiga Luciane Maria Molina Barbosa, pedagoga especializada em grafia Braille; professora de Alfabetização/reabilitação pelo método Braille; capacitação de professores e palestrante. Para entrar em contato com a autora, mande um e-mail para braillu@uol.com.br. Acesse também o site: HTTP://intervox.nce.ufrj.br/~brailu.

Nenhum comentário:

Postar um comentário