sexta-feira, 14 de março de 2008

A educação de hoje, mas não de sempre

Assisti ao programa Repórter Record, apresentado toda segunda-feira, cujo tema era “Educação: o caminho do futuro” (19.11.07).

Sou formada em Letras, assim, para finalizar minha graduação, precisei realizar o chamado estágio obrigatório. Confesso que ficava desesperada. Logo de cara, eu e meu grupo fomos a um colégio situado em um bairro de classe alta. A estrutura física não deixava nada a desejar, os professores e coordenadores foram muito atenciosos. Contudo, imagine o tamanho da nossa surpresa quando nos informaram que a nossa turma não era uma turma qualquer, de determinada série: colocaram em uma mesma classe somente os alunos indisciplinados da escola da 6ª a 8ª série. Sim, prestaram atenção: somente os alunos indisciplinados.

Outra surpresa: foram meus melhores alunos! Participaram de todas as atividades, nos respeitaram, foram muito educados, atenciosos, enfim, nos surpreenderam. Sabendo da situação da educação do nosso país, esperávamos um filme de terror. Então, isso até deu um ânimo.

Alguns meses depois, mais uma escola. O bairro um pouco mais simples, com mais alunos da periferia. 5ª série. Tenho de ser mais que sincera neste momento: quase fiquei louca! A falta de educação, de respeito e o desinteresse reinam absolutos. Nem a própria professora da classe “dava conta do recado”, imagine a situação dos estagiários. A didática da professora era péssima (e olha que eu estava iniciando nesse campo). Lembro dos alunos gritando, se batendo, correndo pelos corredores...

Mais uma etapa. Estrutura? Boa. Organização? Também. Atenção dos professores da escola? Péssima. Aliás, uma ressalva aqui – a professora regente das classes não apareceu em nenhum dia em que estive presente na escola (nem cheguei a ver a professora). O que nos questionávamos era como isso poderia acontecer em uma escola. A professora simplesmente não aparece e deixa os alunos sem aula? Se não fossemos nós, os estagiários, aqueles estudantes teriam perdido a noite de aula e muito conteúdo pela falta de comprometimento dessa “profissional”.

Passada essa experiência, não tão traumatizante quanto os alunos da tal 5ª série, tivemos a oportunidade de fazer o melhor e ver o melhor. Aula de verdade, com uma professora responsável, capacitada, que motiva seus alunos. Nossas aulas foram ótimas.Fiquei muito feliz – e muito triste de ter de deixá-los ao final desse período. Foi, realmente, recompensador. Essa foi a terceira escola na qual estivemos.

O que tudo isso tem a ver? Claro, é apenas a visão de uma estagiária, mas com certeza é o que a maioria dos professores presenciam dia-a-dia. No programa, a qual me referi no começo deste texto, foram mostradas realidades mais distantes (tanto geograficamente como culturalmente/socialmente), mas com certas coincidências. Alunos indisciplinados, escolas sem estrutura, professores sem preparo e muitos estudantes com sonhos a serem realizados, com esperanças.

É de chorar a situação da educação pública de nosso país. São poucos anos de República, Independência, fim da escravidão, até mesmo de descobrimento – se compararmos com as grandes potências –, porém, continuamos com crianças que precisam deixar a escola para cuidar dos irmãos, negros e índios sem oportunidade, falta de escolas dignas, material didático... São inúmeros os problemas, mas talvez o pior deles seja a falta de honestidade, de vontade de mudar, de ajudar. Eu, como professora (não atuante, preciso ressaltar), vendo esse programa me senti muito responsável por esta situação. Fiquei pensando o que eu poderia fazer, qual seria a minha parte. Trabalho voluntário, divulgação da importância da educação (isso é necessário?), doações de livros, projetos que auxiliam comunidades mais pobres... tudo me passou pela cabeça.

Na verdade, faltou uma parte de minha experiência como professora. Fiz parte da Alfabetização Solidária. Ensinei pessoas que poderiam ser meus pais, ou até avós, a lerem o próprio nome. E isso, com certeza, me fez muito feliz! Me senti muito mais participativa, importante; responsável por mudar o futuro de alguém, do Brasil. Tirar essas pessoas das tristes estatísticas.

Será que mais pessoas, professores e educadores desse País sentem essa mesma responsabilidade que eu senti? Aliás, não precisam ser só esses profissionais, mas também os cidadãos com um pouco mais de estudo, conhecimento, condição social. Será que um dia poderemos provar que a união faz a força? Será que um dia teremos a mesma vontade de vencer que temos ao torcer pela seleção nas Copas, para lutarmos juntos, em todo o Brasil, pela educação, por um futuro melhor, mais digno e seguro?

Até

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